artigo - Saiba tudo sobre a sua Estácio

Logo Estácio


Pobres meninos ricos

August 3, 2017 15:17
Voltar Pobres meninos ricos

Há vários estudos demonstrando como a miséria e a pobreza dificultam a aprendizagem. Uma outra variável menos estudada é o quanto as discrepantes desigualdades sociais afetam a todos, inclusive os mais ricos. Ou seja, mesmo aqueles que têm acesso a tudo, pelo convívio em sociedades excludentes, também são negativamente atingidos, em especial na educação.

O Pisa - Programa Internacional de Avaliação de Alunos – é uma avaliação internacional que mede desde 2000, a cada três anos, o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática, Ciências e, mais recentemente (desde 2012), Conhecimentos em Finanças. O exame é realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade formada por governos de 30 países que têm como princípios a democracia e a economia de mercado. Países não membros da OCDE, como é o caso do Brasil, também podem participar do Pisa enquanto convidados. Atualmente, 70 países participam do Pisa, cujo objetivo principal é produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação básica e que possam subsidiar políticas nacionais de melhoria da educação.

Na última edição do Pisa (2015), pela primeira vez o Brasil participou da prova específica de conhecimentos financeiros, sendo um dos 15 países onde o teste foi aplicado. Nossos resultados não foram bons, a exemplo das demais matérias, mas desta vez neste quesito ficamos em último (média de 393 pontos, atrás de países da região como Peru, com 403, e Chile, com 432 pontos). Um detalhe interessante mereceu a atenção e análise de estudiosos: mesmo nossos alunos mais ricos tiveram baixíssimo rendimento. Em outras palavras, temos um problema educacional grave, em todas as áreas, acrescido do fato que mesmo aqueles com acesso a bens e serviços de mais qualidade evidenciam grandes chances de resultarem pouco competitivos em uma economia de escala global.

No teste de conhecimentos financeiros, se considerarmos somente os alunos brasileiros mais pobres o resultado é uma média de 364 pontos (penúltimo lugar, à frente do Peru), enquanto os mais ricos ficaram em último lugar com 441 pontos. Portanto, uma diferença de 77 pontos entre eles, enquanto nos demais países a média das diferenças entre os 25% mais ricos e os 25% mais pobres é de quase a metade, 40 pontos. Em resumo, fomos mal em ambos os extremos, sejam os mais ricos ou os mais pobres, e a desigualdade de notas entre eles é bem maior do que o observado em média nos demais países.

Se os resultados educacionais fossem lineares com as respectivas rendas per capita de cada país, os alunos brasileiros deveriam, em tese, ter obtido aproximadamente 40 pontos a mais do que tiveram, evidenciando que a nossa realidade econômica é agravada pelas disparidades sociais específicas. Ou seja, os enormes contrastes sociais projetam uma elite não competitiva convivendo com as classes populares também despreparadas. Em outras palavras, o Brasil pode, eventualmente, ter ciclos de crescimento, como os tem tido; porém, sem enfrentar seus dilemas sociais e educacionais, conviverá eternamente com fortes dificuldades em atingir um desenvolvimento econômico, social e ambiental que seja efetivamente sustentável.

Como apontado em artigo anterior, as raízes deste destino de provável baixa produtividade e consequente dificuldade de competitividade global estão bem descritas desde a clássica obra “Casa-grande & senzala” de Gilberto Freyre, publicada em 1933. De um lado, uma “casa-grande”, basicamente acomodada e pouco estimulada a competir. De outro, a “senzala” que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, e que não dispõe das ferramentas e dos instrumentos próprios que lhe permita ser o polo principal do aumento de produtividade e a promoção do desenvolvimento econômico.

Um desenvolvimento sustentável não pode depender exclusivamente de educação, mas sem ela não haverá sustentabilidade alguma. No mundo da educação, temos uma singular oportunidade, a partir de nosso caldo cultural particularmente afável às tecnologias digitais e com demonstrações evidentes de competência no seu uso, de conjugarmos quantidade com qualidade. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar, é repetir o passado que não está dando certo. A melhor definição contemporânea de inovação, inclusive em educação, é a geração de produtos e serviços novos que viabilizem ofertamos qualidade para muitos.

Ronaldo Mota é Reitor da Universidade Estácio de Sá

Confira a coluna Etimologia do professor Deonísio da Silva, professor titular visitante na Universidade Estácio de Sá, publicada semanalmente na revista Caras.

February 8, 2017 11:07
Voltar Confira a coluna Etimologia do professor Deonísio da Silva, professor titular visitante na Universidade Estácio de Sá, publicada semanalmente na revista Caras.

O Decanato, do Latim decanatus, jurisdição e função do decanus, decano, é o membro mais antigo de uma instituição. Já Estado, do Latim status, pelo Francês état, é uma nação politicamente organizada, mas com vários outros significados, como em estado civil, estado de direito.

Bagaceira: de bagaço e este de baga, do Latim bacca, baga de árvore ou planta, provavelmente do mesmo étimo da Bákkhos, divindade sedutora da Trácia, região hoje partilhada pela Grécia, pela Turquia e pela Bulgária. Uma das variantes da deidade é Baco, o deus romano das vinhas e do vinho, equivalente ao deus grego Dyoniso. Designa a tulha onde é juntado o bagaço da uva. Por comparação, diz-se de uma pessoa dada a beber que é bagaceira. As palavras italianas bagatella, miudeza, coisa que vale pouco, e bagattino, antiga moeda, de pouco valor, têm o mesmo étimo de baga. A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1887-1980), tem um triângulo amoroso violento: Dagoberto, senhor de engenho, estupra a retirante Soledade, namorada de seu filho, Lúcio.

Decanato: do Latim decanatus, jurisdição e função do decanus, decano, membro mais antigo de uma instituição. Designou na origem quem já a integrava há pelos dez anos, como indica o étimo decem, dez em Latim. Decanus, no Latim medieval, era quem comandava dez soldados, dez monges, dez bispos etc. Na astronomia egípcia, cada uma das dez seções em que se subdividia o céu. Atualmente, decanato é palavra muito utilizada por quem escreve sobre astrologia e horóscopo para referir-se ao terço de cada signo, regido por astro independente daquele que rege o signo.

Estado: do Latim status, pelo Francês état, nação politicamente organizada, mas tendo uma série de outros significados, como em estado civil, estado de direito, estado de saúde, estado de espírito etc. No primeiro sentido aparece em A Arvore de Isaías, do paranaense Fábio Campana (69), autor também do clássico O Guardador de Fantasmas: "Todas estas experiências têm em comum a perspectiva de dar solução a iodos os problemas através do Estado forte e impositivo. De Hitler a Mao, de Mussolini a Vargas, de Pinochet a Pol Pot, de Galtieri a Castro".

Faxina: do Latim fascina, feixe de ramos ou de lenha miúda, do mesmo étimo de/asc/s, feixe, depois fascium, molho, ajuntamento, no Latim medieval. Provavelmente ganhou o sentido de limpeza porque as primeiras vassouras foram feixes de ramos. Nas lides do mar, faxina designava também o grupo de grumetes, marinheiros e cabos encarregados do serviço braçal. Primeiramente navios, depois casernas, locais de trabalho, fábricas e por fim residências tornaram-se locais preferenciais de trabalho de faxineiros e faxineiras. A escritora Adriana Sydor diz, em Faxina: "Acordei cedo para tratar da limpeza da casa, entre vassoura, aspirador e espanador; repeti um milhão de vezes o mantra de como odeio ter que fazer faxina".

Guirlanda: provavelmente do antigo Germânico garnir, enfeitar, que deu a variante grinalda em Português e está presente no Italiano ghirlanda e no Francês antigo garlande. Designa coroa de flores, ramos, pérolas ou pedrarias, utilizadas para enfeite, inclusive no verso de algumas moedas, com dois ramos entrelaçados. E também adorno feminino para prender os cabelos. Lemos cm Intemperanças, antologia de Thereza Christina Rocque da Motta (59): "São rosas que me ferem,/ coroa de flores,/ guirlanda,/ urdido ninho em que postas,/braços cruzados sobre o peito".

Holandês: de Holanda, do Neerlandês Nederland, país baixo, língua falada no Nordeste do Brasil com as invasões holandesas havidas no século XVII, que resultou numa dura guerra, cujos lances decisivos foram as duas Batalhas de Guararapes, em 1648 e 1649, respectivamente, antecedidas da traição de Domingos Fernandes Calabar (1609-1635). O chefe do governo holandês no Brasil, Maurits van Nassau-Siegen, o nosso popular Maurício de Nassau (1604-1679) -Siegen foi esquecido...-, enidito e humanista, escreveu uma carta muito curiosa ao diretor da Companhia Ocidental das índias, que financiou a guerra, solicitando "legumes, morrões, tambores, cometas para chamar os soldados e acender o entusiasmo guerreiro, e também insígnias e cinturões de Unho alaranjado para estimular e discernir os soldados". Morrão, de etimologia desconhecida, é corda. A cor laranja, como hoje nos times de futebol, foi considerada indispensável para reconhecer os companheiros no campo de batalha.

Deonísio da Silva, da Academia Brasileira de Filologia e da Academia Catarinense de Letras, escritor, doutor em Letras pela USP, professor (aposentado) da UFSCar (SP), professor titular visitante na Universidade Estácio de Sá (RJ), coordena projetos na Unisul (SC) e é colunista na Rádio Bandnews, com o jornalista Ricardo Boechat. É autor de Avante, Soldados: Para Trás e de Lotte & Zweig (www.leya.com.br), publicados também no exterior, e de De Onde Vêm as Palavras, www.lexikon.com.br.

Marshall McLuhan: o meio era mesmo a mensagem

February 6, 2017 17:43
Voltar Marshall McLuhan: o meio era mesmo a mensagem

Professor comenta os 50 anos de lançamento do clássico do teórico canadense e suas acertadas previsões sobre o que mudou no mundo com a existência de uma rede global de informação

Ronaldo Mota
Reitor da Universidade Estácio de Sá e professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

O filósofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan (nascido em Edmonton em 1911 e morto em Toronto em 1980) é considerado por muitos um dos mais relevantes pensadores do século 20. E é fato que ele antecipou os impactos, com detalhes, do que viria a ser uma futura rede mundial de computadores, a internet, a qual só foi viabilizada comercialmente décadas depois de sua morte. Suas ideias e análises originais têm contribuído substancialmente para explicar os fenômenos envolvendo os meios de comunicação e suas relações com a sociedade. McLuhan foi importante para entender a virada do milênio e continua sendo essencial no transcurso destas primeiras décadas. Entre suas tantas obras, destacam-se: O Meio é a Mensagem, Guerra e Paz na Aldeia Global e Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem.

Neste ano de 2017, estamos celebrando os 50 anos do livro: The Medium is the Massage: An Inventory of Effects, publicado em 1967, em coautoria com o designer gráfico Quentin Fiore. A obra, composta de textos e imagens, representava uma experiência sensorial que transcendia o ato simples da leitura, explorando o fato de que cada meio dizia respeito a uma mensagem, com efeitos diferentes no sensorial humano. Desta forma, os meios eram considerados extensões do ser humano, incluindo seus sentidos, mentes e corpos. O livro foi um exercício bem-sucedido de premonição, destacando os possíveis efeitos do que McLuhan chamava de circuitação eletrônica, uma clara antecipação do que um dia viria a ser a rede mundial de computadores. Só mesmo um visionário para prever naquele ano que um nível de interdependência eletrônica envolvendo toda a população fosse prover informação abundante, instantânea e gratuita, acelerando sua visão de Aldeia Global. 

A grande ruptura nos pensamentos de McLuhan estava em assumir que o meio fosse em si um elemento essencial da comunicação e não somente um canal de passagem ou um veículo de transmissão. Ou seja, cada suporte midiático (rádio, jornal, cinema, televisão etc.), independentemente do conteúdo, teria suas características próprias e, em consequência, os seus efeitos específicos. Assim, uma eventual transformação do meio poderia ser mais determinante do que uma alteração no conteúdo, evidenciando que o mais importante não seria a mensagem, mas sim o veículo pelo qual a informação estava sendo transmitida. 

Ao falar de educação, McLuhan percebeu o quanto esta área seria afetada, predizendo que, em suas palavras, "uma rede mundial de computadores tornará acessível, em alguns minutos, todo tipo de informação aos estudantes do mundo inteiro". Na verdade, hoje a citada informação já é abundante, instantânea e, progressivamente, gratuita. Previu também, corretamente, que em um futuro próximo: "Em nossas cidades, a maior parte da aprendizagem ocorrerá fora da sala de aula. A quantidade de informações transmitidas pela imprensa excederá, de longe, a quantidade de informações transmitidas pela instrução e textos escolares". Coerente com a realidade contemporânea onde todos aprendem o tempo todo, fora e dentro da escola, e cada qual de maneira personalizada, adotando meios, estratégias, metodologias que lhe são mais adequadas e convenientes.

McLuhan, portanto, desconstruiu uma relativa obsessão pelo conteúdo, resquício, segundo ele, da cultura letrada obsoleta, incapaz de se adaptar às novas condições tecnológicas. Ele sugeriu abandonar o excessivo esforço na interpretação do conteúdo e enfatizou a necessidade de centralizar as atenções no que deveria ser o alvo central: o meio. Educacionalmente, há também um interessante paralelo com a crescente preponderância metodológica do aprender a aprender sobre o simples aprender. Ou seja, mais do que o conteúdo aprendido, trata-se de reconhecer a centralidade do amadurecimento do educando acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende. Em resumo, em um mundo de educação permanente, o que importa ao estudante é ter, ao longo do processo, aumentado seu nível de consciência sobre como ele aprende (metacognição) e ter amplificado o domínio da multiplicidade de meios associados aos processos de aprendizagem.